quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Máximo de tédio no máximo de civilização




Na Terra tudo vive - e só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter um tecto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso - e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência! Dixit!

Eça de Queirós, in "Civilização"


Regressar ao paraíso é uma ideia interessante. Mas, após ter experimentado a civilização com os seus bens e males, poderá o homem ser feliz no Paraíso do "mínimo de civilização"?

1 comentário:

João Norte disse...

Que ideia temos nós do paraíso? ausência de problemas? sexo à vontade? música e ânjos?
Eça escreve num tempo em que a religiosidade se mantinha.E hoje?