domingo, 4 de março de 2007

Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos




O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.




Marguerite Yourcenar, in 'Sistina'

sábado, 3 de março de 2007

Elis Regina

Som: Águas de Março

(Porque também eu sou água de Março...)

sexta-feira, 2 de março de 2007

Canto do microconto



vantagens de ser rico

Quando a Morte lhe bateu à porta mandou o mordomo dizer que não estava.


torradeira

Ele queimou-se antes de saltar fora. Sexo tórrido entre um pão e uma brasa só podia mesmo acabar assim.


cinzeiro

Desenhava mapas de cinza e apagava os cigarros nos locais que sonhava visitar.


problema de comunicação

O homem que assentou o último tijolo na Torre de Babel não conseguiu falar a língua que Deus lhe destinou porque era mudo. Conhecessem os outros a linguagem gestual e teriam acabado a obra.


dilema moral

Quando descobriram a sua poligamia e o proibiram de ter mais do que uma mulher, deparou-se com o maior dilema da sua vida. Sempre fora moralmente contra o divórcio.


fgs

quinta-feira, 1 de março de 2007

Os poetas do Parque (IX)



ficheiro retirado


Fado português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


José Régio

Interpretado por: Dulce Pontes