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quarta-feira, 3 de junho de 2009

A vida





by hkocak

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice

sábado, 9 de maio de 2009

Leve



Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.




Alberto Caeiro

quinta-feira, 26 de março de 2009

nada digas




Fala-me da dignidade
de se ser maior
-; do amor -
de se ser gente que quer ser
melhor
- que o amor -
da idade sem idade de amar
- o amor -
inferior
condição; se for ser-se indolor
- ao amor -.
Fala-me do amor
- superior -
de se ser gente que quer ser
digna
- maior -.

Meu amor
nada digas de amor
- é melhor -.





quinta-feira, 12 de março de 2009

Procura a maravilha

by Anayari Connoly


Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A nossa casa é um lugar ao vento



by Donnie Mackay


A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos
o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.

Tudo nos pertence porque guardamos na memória
os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos
de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.

Esta época não é a nossa. Subverte os conceitos
do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude.

Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar
na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos
de tempestade, na consciência das opções sublevadas.

Vieira Calado, in Transparências

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Cantos de uma paisagem antiga (VII)



by Adam Orzechowski

A passagem do Inverno

Existe esta espera
da natureza que chora
grossas lágrimas de saudade.
Existe este estilete de gelo
que nos penetra na alma.
Recolhe ao casulo, amor
ao doce refúgio que teço
construo, aqueço.
Revive no fogo que acendo
em mim.
Traz contigo o calor do desejo
no meu sono depõe um beijo terno
deixa o frio viver fora de portas.
Dá-me a mão na passagem deste Inverno.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Nascimento último



by Gilles le Bihan

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa

sábado, 24 de janeiro de 2009

Cantos de uma paisagem antiga (VI)



by Graça Loureiro

Na paisagem, de madrugada...

Entrei na paisagem pela madrugada
Corri nos caminhos saudosos de ti
Riachos gelados beijaram-me os pés
Deitei-me na terra sentindo o odor
Que a natureza me disse ser teu
Chamei-te em silêncio pelas veredas
Sonhei-te os passos lentos de outrora
Senti-te em mim nas horas de sempre
No sol das manhãs e na bruma da tarde
Soube que virás num dia nostálgico
Quando a terra disser que estás a chegar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Antes o voo




by Artur K.

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

doença



by wkg

eu também padeci dessa doença.
também chamei médicos a desoras.
também tomei os chás de vários pregadores.
andei de feira em feira à cata de bruxos.
dei as minhas mãos em várias leituras .
também me leram cartas .
Os magos me fartaram.
e no entanto nunca fiquei curada.
não curada deles
seus remédios e cartas.

Foi há tempos longos.
eu nem sei se me era
tanto andar andou.
Hoje
nem doença, nem nada.
curei-me.
sabes como?!
curei-me de cansada.

mcorreia

sábado, 10 de janeiro de 2009

Cantos de uma paisagem antiga (V)



Foto by Izabel

Não te direi

Não te direi nunca:
lembras-te?
Nem te levarei pelos campos
a olhar o mar,
espelho de interrogações futuras.
Não olharei nos teus olhos
a minha imagem
mulher de qualquer idade.
Sou em ti um cristal
vibrando neste dia e nesta hora,
um corpo de líquidos desejos,
pedaço de alma que se entrega
em cada troca de beijos.
Direi: amor, amor
quando em meus braços te aperto
e ficarei (sempre)
gravada em teu olhar aberto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Príncipe



by Murat Harmanliki


Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Espelhos



"untitled mirror" by zsofi porkolab


Persigo há muito a senda dos espelhos.
A intrigante e abismal distância
onde tudo descansa. Reinos virtuais
de nevoeiros e acordes improváveis.

Os espelhos não dormem. São atentos
ao nascimento e à morte de imortais.
Intacta guardam a memória dos que
na sua transparência se colaram.

Quem dera ao entardecer os penetrasse
o frio diamante do meu peito
e os incontáveis braços das ausências,
comovidos, rendidos, me pegassem.

Licínia Quitério, in "De pé sobre o silêncio"

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Reinvenção do mundo


by Maciej Knapa

Não quero mais um dia.
Quero um novo dia,
Repleto de surpresa e fantasia.
Anseio por novidades e mudanças,
Novas cores,
Novas vidas,
Novas esperanças.
Algumas noites deveriam ser prateadas,
Porque hão-de ser sempre negras e cerradas?
E o mar? Sempre azul cintilante!
Porque não vermelho flamejante?
Os campos deveriam amanhecer azuis algumas vezes,
E todos os anos deveriam mudar o nome dos meses.
Como seria doce pela manhã despertar,
Olhar ao alto e exclamar:"Hoje o céu está da cor da esperança,
E o tempo parou! O relógio não avança."
Mas os dias... são todos tão iguais,
Vinte e quatro horas pontuais.
Estou enfastiado desta monotonia grosseira,
Não poderiam ser vinte cinco à sexta-feira?
Contem-me mentiras novas, histórias surpreendentes.
Reinventem o mundo com imagens diferentes.
Só tenho vinte cinco anos e estou tão cansado...
Reinventem este mundo ou levem-me para outro lado!



Gonçalo Nuno Martins, in Nada em 53 vezes

domingo, 30 de novembro de 2008

Cantos de uma paisagem antiga (IV)



by Claudio Naboni

Ciclo (e)terno

Escuta o rio
e o canto
do pássaro
no frio.
Breve será
o sono da terra
e a folha
na margem
renascerá
na pele da flor
que abre ao sol
doce de Inverno.
Assim a vida
um ciclo (e)terno.
Assim o amor.

sábado, 8 de novembro de 2008

Cantos de uma paisagem antiga (III)



by Cihan Altun

Chove sobre a paisagem

Chove sobre a paisagem
é Outono outra vez.
Não sentes o arrepio que passa
na crista do vento?
É tempo de procurar abrigo
enquanto o sol ainda brilha
e as tardes trazem consigo
o manto de ouro das árvores.
Em breve será o tempo
de velar o sono da terra.
Guardamos no corpo a semente
dos dias azuis doutra era
e nos olhos que se enlaçam
será sempre Primavera.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008




by Venedict Cristina

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

sábado, 1 de novembro de 2008

Cantos de uma paisagem antiga (II)



by Bognár Tamás

Sabor

Sabes a…
rebuçado de limão
açúcar em caramelo
ou chocolate de menta?
Ou será…
sabor de água do mar
e um toque de pimenta
com claras em castelo?
Não sei…
definir no teu sabor
tudo o que me enlouquece.
Talvez saibas a amor
a pele que a minha merece.
Ou será teu paladar
o gosto que saboreio
o início que amanhece
este desejo sem freio?

domingo, 26 de outubro de 2008

Cantos de uma paisagem antiga (I)





Só a luz dos teus olhos...

Já não sei se chove
Ou se o sol espreita
Só a luz de teus olhos
Me guia e me move
Teu corpo me envolve
Lençol de ternura
Em que o meu se deita.
Já não sei se é dia
Ou noite cerrada
No trilho de ausência
Só espero a alegria
Manhã do teu rosto
Que em mim se reflecte
Só por ser amada.

Só a luz dos teus olhos
Ou noite cerrada.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Palavra



by Darren


A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a ouve.


Michel de Montaigne