terça-feira, 14 de agosto de 2007

Let Me Fall

Performed by Le Cirque du Soleil

domingo, 12 de agosto de 2007

Torga - 100 anos




São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga


Foto: o Douro visto do Miradouro de S. Leonardo da Galafura

Género e Cidadania nas Imagens de História



Podemos pois afirmar que as representações estereotipadas do que é ser mulher e ser homem estão presentes (…). Consideramos que há uma associação implícita das figuras masculinas a papéis activos que se concretizam na esfera pública, através das intervenções político-militar e financeira, ligadas à tomada de decisão (…). A presença das figuras masculinas em todas as esferas traduz-se no exercício de uma diversidade de papéis, a qual pressupõe uma igual diversidade de capacidades e competências. (…) Em contrapartida, a sistemática subrepresentação das mulheres, cuja visibilidade se associa quase sempre a elementos masculinos, sugere a sua dependência bem como a ausência de autonomia como indivíduo. (…)
Nos materiais que analisámos, os rapazes podem identificar-se facilmente com o tipo de protagonismo histórico, colectivo e individual, apresentado pelas imagens, podendo aderir aos modelos de pessoa a que correspondem as personalidades históricas, pois situam-se sempre no seu grupo de pertença sexual. (…) O mesmo não se pode dizer das raparigas, face a uma história androcêntrica que secundariza as mulheres ou as silencia. Em vez do reforço da identidade enquanto colectivo feminino, as raparigas confrontam-se com modelos masculinos que actuam em áreas que não lhes estão associadas, de acordo com determinadas concepções do que é ser mulher. As raparigas são levadas a tomar como referência os modelos masculinos, bem como as suas características e atributos. (…) Esta hipótese parece ser corroborada pelas alterações do modo de vida das mulheres e dos homens. A presença das mulheres em esferas tradicionalmente entendidas como masculinas não tem sido acompanhada pela correspondente presença dos homens nas áreas consideradas mais apropriadas às mulheres.




Maria Teresa Alvarez Nunes, in "Género e Cidadania nas Imagens de História", Estudos de Manuais Escolares e Software Educativo, ed. CIG, Lisboa 2007

sábado, 11 de agosto de 2007

A raiz do orvalho




Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


Mia Couto